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Entender que cada espécie é um ser único e complexo também nos faz pensar sobre o nosso próprio tempo e papel no mundo

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Roberto Burle Marx, renomado paisagista e artista plástico brasileiro, costumava dizer uma frase simples, porém cheia de significado, sobre os seus projetos: “o tempo completa”. A afirmação demonstra um profundo conhecimento – e respeito – pelo ciclo das plantas e a maneira como elas interagem entre si, com o ambiente no qual estão inseridas e, por que não, as pessoas que passam por ali.

Burle Marx foi responsável pela idealização de importantes obras paisagísticas, muitas delas realizadas há mais de 50 anos, como o Eixo Monumental de Brasília. Até por isso mesmo é curioso imaginar que, ao contemplar, hoje, um jardim de Burle Marx, vemos algo bem diferente do que, um dia, foi visto pelos olhos de seu criador. Afinal, estamos falando de espaços em constante transformação.

Um ótimo exemplo desse movimento de entrega, confiança e respeito que ele tinha em relação às plantas foi o uso das palmeiras Talipot no projeto do Aterro do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Nativas do Sul da Índia e do Sri Lanka, as árvores começaram a florir 60 anos depois de terem sido plantadas por ele. 

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Fonte: arianemittidieriPalmeiras Talipot.. | Aterro do Flamengo.. Palmeiras raras,o… | Flickr

Outro detalhe: após exibir minúsculas flores bem no topo das suas folhas, a palmeira, cujo nome científico é Corypha umbraculifera, definha e morre. Agora, imagine se Burle Marx não tivesse utilizado a espécie, simplesmente, porque não a veria florescer ou porque ela morreria após dar flores? Sem dúvidas, perderíamos um verdadeiro espetáculo da natureza.

Aprender sobre o tempo das plantas é aceitar sobre o nosso tempo no mundo

Diferentemente do que acontece com os animais, ver as plantas como algo semelhante a nós é algo que demora mais a acontecer. Mas, assim como os seres humanos, elas possuem seu próprio tempo no mundo. 

De uma semente, elas germinam, brotam, crescem, florescem, dão frutos e morrem. Algumas têm passagem rápida, outras vivem por muitos séculos, até milênios. Algumas podem florescer e dar frutos, outras não. 

ciclo das plantas

Cultivar plantas é, acima de tudo, apreciar a jornada e não apenas o destino. Com uma boa dose de disposição e empenho, as verdinhas também vão te ensinar sobre:

Paciência: não adianta plantar uma muda hoje e querer flores amanhã. No cultivo de plantas, não dá para acelerar o tempo nem correr freneticamente. 

Dedicação: quando estão em seu ambiente natural, as plantas têm acesso a tudo o que precisam para sobreviver. Em casa, elas precisam da nossa ajuda para beber água, tomar sol e se alimentar. 

Lidar com os erros: acredite, ninguém nasceu sabendo a maneira correta de adubar, podar e regar uma planta. Busque informações, faça o seu melhor, mas saiba que os erros vão, sim, acontecer.

Resiliência: algumas jornadas são mais complexas e, por muitas vezes, pensamos em desistir. É justamente nesses momentos que as plantas tendem a nos surpreender. Um galhinho seco em que surge um broto, uma planta murcha que ganha vida. São pequenas conquistas que nos enchem de alegria!

Enfrentar a chegada do inverno: não tem jeito, todo ano ele virá. Nesse período difícil, boa parte das plantas irá guardar suas energias para sobreviver. Suas folhas podem cair e, em determinados momentos, elas podem parecer ter perdido a batalha. Mas não se surpreenda quando elas explodirem de beleza na primavera.

Aproveitar as pequenas coisas: as plantas nos convidam a diminuir o ritmo para apreciar as delicadezas do dia a dia. Lembre-se que os ciclos são passageiros, por isso não deixe de admirá-los.

A flor que nasce apenas uma noite

Considerada uma das ilustradoras botânicas mais importantes do século XX, Margaret Mee foi uma inglesa que viveu no Brasil por 36 anos. Entusiasta da flora brasileira, ela realizou cerca de 15 expedições para a Amazônia, ajudando a catalogar diversas espécies.

Um de seus principais objetivos era encontrar e desenhar a rara Flor da Lua – uma espécie de cacto, nativo da Amazônia, que fica visível apenas durante a noite, entre os meses de maio e junho. 

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Reprodução de Moonflower, de 1988, de Margaret Mee

Apenas em sua última expedição ao Rio Negro, aos 79 anos, depois de horas navegando entre arbustos espinhentos e ásperos em uma canoa, Margaret atingiu o remoto local onde a flor a esperava. Uma vida inteira dedicada ao ciclo único de uma espécie.

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